Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pedrinhas - Hipocrisia e Virtude






Em algum lugar,
Do vasto país,
Morrem homens decapitados,
Estupradas são suas filhas,
Estupradas são suas mulheres,
Sua humanidade é negada,
Porque vistos como animais,
Porque tratados como animais,
Porque colocados na condição de animais!

Fazemos leis para punir maus tratos aos animais,
Revoltamo-nos com a fome, o frio,
O sofrimento dos animais,
Não nos preocupamos com a morte,
O frio, a doença, a violência,
Para com outros homens,
Para com suas famílias,
Para o abuso sexual,
A violência pura e simples,
Contra outros homens e mulheres!

Um ministro da justiça,
Que poderíamos perguntar,
Que justiça,
Diz que uma governadora,
Terá autonomia para resolver,
Uma crise de falta de humanidade,
Crise que sua inconsequência,
Que sua imprevidência,
Que sua indignidade,
Provocaram!

Pragmatismo de uma sociedade hipócrita,
Pragmatismo de um partido estelionatário,
Pragmatismo político de uma sociedade sórdida!

Bandido tem que se matar mesmo,
Bandido tem que praticar violência mesmo,
Bandido tem que morrer decapitado mesmo,
Bandido tem que estuprar a filha a mulher,
Bandido tem que mostrar e ser bandido de bandido!

Sociedade abjeta, que se diz cristã,
Que vai à missa, que vai ao culto,
Que vai ao terreiro, para depois,
Absolutamente virar o rosto enojado,
Acreditando que tudo está certo,
Porque afinal são bandidos!

Uma sociedade podre,
Que quer mais penas,
Que quer mais punição,
Que quer mais sofrimento,
Porque todo o sofrimento que já causou,
Não basta...

Sociedade, onde o torpe vício,
As torpes consciências,
Prestam homenagens à virtude,
Constroem templos à virtude,
Gastam rios de tinta à virtude,
Para em seu âmago,
Aplaudir a desumanidade,
A injúria à vida,
Que a prisão do Maranhão,
Desnuda, escancara, mas...
Não sensibiliza!

Pedrinhas...
Quando veremos teus homens,
Quando veremos tuas mulheres,
Dignas da caridade...
Dignas da misericórdia?

Pedrinhas, quando teus gritos,
Quando teus lamentos serão...
Enfim escutados?

Lamento que entre vícios e virtudes,
Esta lamentável sociedade,
Este país abandonado por Deus,
Esquecido pelos homens,
Tenha escolhido os vícios!

O resto,
São más consciências,
São más intenções,
São desonestidade e mentira,
E PT saudações!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Determinação






O que desejo realmente,
É o que posso realizar!
Sempre, que desejamos,
Verdadeiramente algo,
Nada pode nos impedir!

Todo e qualquer impedimento,
Reside em falta de determinação,
Em cálculo equivocado do que queremos,
Do que podemos, dos sacrifícios que estamos,
Dispostos a fazer, pelo que desejamos!

Nada é impossível,
Poucas coisas são improváveis,
Todo limite, está inscrito,
Nas insuficiências de nossa determinação!

Assim, nunca diga...
Não posso...
Não consigo...
Não é para mim!

Todas essas assertivas,
São apenas formas, de dizer,
Não quero e não tenho coragem,
De assumir, fracassos conscientes,
Desejados!

Por isso, determinação,
E determinação, antes de tudo,
É saber escolher, entre o que posso,
E o que devo fazer!

Determinação, muitas vezes,
Confundida com teimosia,
É antes de tudo uma qualidade,
De todo aquele que não teme,
Fracassos, antes de vencer,
Nem acredita que vencer,
É acaso ou sorte!

O determinado sabe que só há...
Uma razão para o sucesso...
E esta razão, é saber que...
Para vencer, há que considerar,
O adversário como oponente,
Nunca como inimigo,
Que a vitória é antes momento de...
Humildade, antes que de glória,
Na medida em que...
Venceu o mais determinado,
Venceu o mais esforçado,
Venceu o que sabe discernir certo e errado,
Mas que hoje é um amanhã pode ser outro!

Determinação, hoje e sempre,
Com humildade e respeito,
Pelo oponente, nunca o fazendo um...
Inimigo!
Sem opositores não há vitórias,
Vencidos escravos, empanam a vitória!

Determinação!


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O que procura?





Recebi uma mensagem,
daquelas que se mandam,
a qualquer um, ou a alguém,
pensando que era outro alguém,
dizia: o que procura?
Não sabia, ainda não sei,
duvido que haja alguém que saiba...

Mas pela manhã...
recebi um bom dia;
sim, era o bom dia que procurava.
Era a humanidade implícita,
sentida, vivida...
no desejo despretensioso,
de bom dia!

Procuro esta humanidade,
que se reveste de ternura,
que se completa com preocupação,
que preenche plenamente o que procuro,
que não sei o que é,
mas que bastou por agora,
ser este bom dia!

Muitas vezes, pensamos,
em grandes coisas,
como as coisas que procuramos,
grandes ações, manifestações,
e muitas vezes, na maior parte,
de todas as vezes,
precisamos apenas,
de um doce, meigo e carinhoso,
bom dia!

O Morto






Estava deitado sobre uma maca, fria, num corredor iluminado por lâmpadas frias, que piscavam continuamente, porque algumas queimadas, como se ninguém percebesse a necessidade de substituição daquelas que já não iluminavam coisa alguma.
Sentiu inicialmente um frio imenso, que parecia partir de sua alma, escutava todas as coisas ao seu redor, mas o burburinho parecia distante, as vozes indistintas, os movimentos não lhe diziam respeito, passavam corpos, imagens, sons, aromas, indistintos. Percebia um cheiro de detergentes, ou antissépticos, ou remédios, ou seja, cheiros agressivos, como se lhe fossem agredir o olfato.
Sua pálpebra semicerrada que não lhe obedecia, já que o que desejava era abrir bem os olhos para saber onde estava. Mas braços e pernas também não lhe obedeciam ao comando, estava enrijecido, e o frio que partia de sua alma não fazia muito sentido, já que era verão, e sempre sentia muito, muito calor!
Pela fresta de sua pálpebra percebia que alguns sujeitos parecendo médicos, discutiam casos, com seus ares sapienciais e circunspectos, mas não se atreviam a tomar qualquer providência que delegavam a outros muito jovens, que cheios de dúvidas e angústias se prontificavam a fazer tudo que se lhes mandavam, e que se resumia a ordenar, escrever e deslocar-se de maneira atávica pelo corredor, como se pudessem resolver todos os casos que se lhes apresentavam, apenas e tão somente pela força da vontade.
O que mais lhe chamou a atenção era a completa falta de compaixão, a discussão que se resumia apenas a dados e considerações sobre possibilidades. Estes jovens que escreviam freneticamente milhares de folhas inúteis de papel, e carimbavam rigorosa e metodicamente cada uma delas, autenticando assim sua ansiedade com um símbolo cartorial de sua profissão, então determinavam autoritariamente e imperativamente a um grupo de outros que vestidos de branco, como aqueles, eram, no entanto, ainda mais alheios ao que se passava com cada um dos assistidos.
O compromisso destes com os lamentos era o de correr para um lado e para o outro, com agulhas, frascos de soro, bandejas de copos grandes, médios, pequenos, cheios de confetes coloridos, que não eram de chocolate, mas cheios de pós e substâncias mágicas que prometiam a vida eterna, seja para acabar com ela ali ou para dar-lhe continuidade.
Tentou entender em primeiro lugar o que fazia ali. Sabia que seu maior temor sempre foi estar num hospital, não porque temesse morrer, mas porque os hospitais são benevolentes câmaras de tortura, criadas para amplificar e prolongar o sofrimento de todos os que têm um atávico medo da morte.
Outro problema é que sempre fora gordinho, que suas veias eram difíceis de serem pescadas pelas agulhas que traziam as mágicas que poderiam lhe dar sobrevida ou trazer-lhe a cura de algum mal. Ainda por cima, havia nascido muito mais peludo do que David Beckham, o que tornava ainda mais torturante a câmara conhecida como hospital.
Permaneceu por algum tempo em silêncio, mesmo porque, não conseguia falar qualquer coisa. Sua consciência da situação foi se aclarando, ninguém se lhe rodeava, o que queria dizer que deveria estar numa condição melhor, e apenas aguardou ter completa capacidade de levantar-se e partir daquela situação insuspeitada até algumas horas atrás quando estava caminhando de forma prazenteira pelas ruas de seu bairro.
Bom, ao pensar nisso, recordou que estava passeando com seu cachorro de estimação, e que era um Fox paulistinha, coisa que não fazia a muito tempo, e quando foi atravessar uma rua, apareceu na esquina, em desabalada carreira, uma destas imensas SUVs que fazem sucesso na inconsciente classe nouveau riche, que compra carros desproporcionalmente grandes para ruas e cidades com ruas estreitas, excesso de veículos e péssimas administrações públicas.
Enfim, uma SUV guiada por um cidadão de bem, que por ter um carro tão grande e caro, sempre para em fila dupla, ocupa duas faixas na rua, entra em duas vagas no Shopping, quando está saindo do estacionamento demora três a quatro vezes mais tempo para por todas as suas bugigangas no carro, para que todos vejam seu poder de compra. Um cidadão consciente de sua dignidade de escolhido por deus para espezinhar o mundo, já que escolhido por ele para ter dinheiro que pode comprar tudo, inclusive a sua consciência moral, e este cidadão, resolve gritar com o filho no banco de trás, que também não tem limites, e desvia o volante, sobe na calçada e opa...
Lembrou que talvez tivesse sido atropelado, mas na realidade não sentia nenhuma dor. Sua primeira preocupação foi com o cachorrino, num esforço tentou chamar o animal que com certeza estaria desesperado sem ele, perdido pelas ruas de seu bairro, sabe-se lá como, sob o risco de pegar pulgas, ser machucado por um outro animal, ou ainda, ser atropelado por um automóvel desgovernado.
Absorto em seus pensamentos, sentiu que alguém lhe colocava um lençol sobre o rosto, pensou, eu não autorizei cirurgia alguma, não vim voluntariamente ao hospital, o que estão fazendo?
Reuniu todas as suas forças, tentou respirar profundamente, agitou-se interiormente, tentou fazer cara feia e então escutou a sentença:
Óbito às 19h53 de dia 9 de algum mês...
Pensou, era só o que me faltava, como vou dizer para a minha amada que não poderei ir ao cinema, dar-lhe um beijo na quinta feira, se acabo de ser declarado morto, sem o meu consentimento?!
Sim, era só o que lhe faltava, mas como era a condição dada, resignou-se e resolveu tirar um cochilo pela eternidade.
A única coisa que lhe inquietava de fato, era quem iria cuidar de seu Fox paulistinha?!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Desconsolação






Guardo aqui, em algum canto,
Em muitos cantos,
Umas fotografias, que...
Dizem de mim, dizem de meu passado!

Guardo aqui, muito bem guardadas,
Fotografias, emudecidas, já não falam seus personagens,
Alguns, já nem respiram...
Outros, não serei mais capaz de encontrar,
Meu consolo, é que aqui estão elas guardadas,
Preservadas do tempo, como provas,
De que existi, e que existiram em mim,

O papel grosso, opaco, em escala de cinza,
Dizem da preciosidade que são estas fotos,
Que sei sempre onde estão,
Porque outros antes de mim, as guardavam,
Como se tesouros fossem!

Encontro nelas meus pais,
Estes quando casavam, jovens,
Sorridentes, promitentes...
Encontro nelas, meu pai, orgulhoso,
Segurando-me no colo, como troféu,
Hoje, maior do que ele,
Seria incapaz de equilibrar-me,
Naquele colo poderoso...

Desconsolação...
Constatação de que hoje,
Fazemos milhares de fotos,
Frágeis, casuais, inexpressivas,
Sem conteúdo, sem sentimento,
Que se perdem, em cartões de memória,
Em HDs que se desfazem,
Computadores obsoletizados,
Em milhares de pastas de ficheiros,
De imagens, que já nem sabemos quem são,,,
Desconsolação...
Sentimento de desamparo,
De não mais pertencimento,
De esquecimento, imperdoável do que somos,
Do que vivemos, e do nosso existir.

Tornamos troféus da memória,
Em banalidades descartáveis,
Apenas expressão de nossa avidez,
Boçal avidez pela fugacidade do momento,
Numa perpetuação da falta de sentido,
De uma vida, cada vez mais,
Desconsolada!