Olhava para a parede, um grande relógio que
marcava o tempo, talvez desde tempos imemoriais, fazia o ponteiro dos segundos
arrastar-se!
Estava aflito, os olhos injetados, o suor a
pingar-lhe pela testa! Tinha que estar ali à espera do momento em que pudesse
alcançar o desejado momento. Ansiava pela hora que a porta abrisse.
Uma porta ao lado dizia algo que para ele era
incompreensível naquele momento, não conseguia sequer ter capacidade de
entender o que dizia a placa sobre a porta, afixada com descuido.
O local era amplo, milhares de pessoas passavam
indiferentes ao seu sofrimento. Ninguém sequer parou para perguntar-lhe por que
de tanta agitação no olhar, por que sentia calor num dia que, se não estava
frio, também não era um dia quente para que pudesse estar suando tanto.
Ficava imaginando a propriedade da regra de
pessoas com mais de 65 anos terem a preferência em muitas situações, se a sua
situação, apesar dos apenas 40 anos, era ainda mais premente, do que a de
qualquer um, naquele momento, que tivesse mesmo mais de 100 anos como Niemeyer.
Avançava o relógio inexorável, mas cada vez mais
angustiosamente lento. Percebeu que o tempo se elastecia, que sua vida
tornava-se eterna naqueles segundos fatais. Havia já atrás de si uma fila, que
sem ser grande, servia para aumentar seu desespero. Uma algaravia vária que
incompreensível para ele homem, era como que natural para as mulheres, que
falam todas ao mesmo tempo, e todas umas com as outras, sabe-se lá como se
entendendo!
Os últimos segundos pareciam horas infindáveis, o
suor pingava sobre o lábio, a língua o colhia, salgado, viscoso, como que
anunciando a tragédia de uma condenação à danação eterna.
Mais um segundo!
De repente!
Abrem-se as portas do paraíso, sai uma senhora da
porta que fitava com tanta ansiedade, uma senhora com algo como 70 anos, muito
lentamente, carregada de sacolas e com dificuldade para passar pela porta
estreita do paraíso, mas quase chorando de dor, de esperança, implora aos céus
que seja breve.
Eis que surge outra senhora, com algo como outros
70 anos, lépida, fagueira, consciente de seus privilégios acumulados apenas por
existir, e furando a fila infindável de mulheres se apresenta para passar à sua
frente, ao que ele então brada:
Pelo
amor de Deus, não sei o que está escrito na porta do banheiro dos homens que
está trancada, mas se eu não entrar neste banheiro agora quem terá de chamar
Deus e todos os santos para me salvarem serão as senhoras! Perdoem-me, mas o
paraíso tem o tamanho e o lugar deste banheiro!
Atirou-se com um leve, mas resoluto movimento de
corpo para dentro do banheiro feminino, teve mil orgasmos ao livrar-se do
resultado das cervejas que havia tomado com o filho na praça de alimentação
daquele espaço público. Só então percebeu, que fazer política é isto mesmo,
colocar todos os homens em desespero, para que, em um segundo bendiga a
presença de um banheiro público, onde possamos despejar todas as nossas más
consciências. Isto se o banheiro estiver funcionando é claro!
Saiu arrumado, recebeu alguns olhares feios,
outras críticas mascadas entre dentes, mas enfim, tinha salvado sua alma, e sua
dignidade!
Salve o Banheiro Público!
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