Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ansiedade do encontro




Estou aguardando o momento,
Um único momento, que promete,
Que se faz de esperança.
O momento em que vou te encontrar,
Beijo-te, temo o tempo,
Tempo que pode ser curto,
Tempo que pode ser longo,
Mas sei que não quero deixar de te beijar!

Sinto-me adolescer, em tua presença,
Sinto-me livre, para ser eu mesmo,
Sinto-me leve, para parecer outro,
Que não eu e meus medos,
Porque em tua presença,
Sou aquele que sempre te desejou,
E cujo desejo se amplifica,
Só pela expectativa do encontro.

Sei que estarás mais bela,
Muito mais bela do que ontem,
Seja o ontem, um tempo perdido,
Sei que serás ainda mais bela amanhã,
Um amanhã que espero, seja todos os dias!

Ansioso estou,
Para não perder cada detalhe de tua existência,
Cada forma de teu corpo,
Cada brilho de teu rosto,
Cada movimento de teu corpo,
Que diga para mim, o que eu gostaria,
De saber desde sempre,
Mas que só tenho certeza,
Quando te tenho presa em mim!

Encontrar-te-ei amanhã,
Tão distante, e mesmo,
Ainda tendo você tão perto de mim,
Sinto tua falta, para poder,
Gozar mais intensamente, do encontro,
Que terei contigo amanhã!

Minha existência se resume,
Assim, plenamente,
Em ansiar, pelo encontro,
Com aquela que é objeto,
Sujeito, unidade,
Existência e plenitude,
Do meu desejo!

Anseio por te encontrar,
Anseio fundir-me em ti,
Anseio perder-me em ti!

Anseio...
Somente...

Deixar de amar?





Muitas vezes pensamos,
Por que deixamos de amar?
O que houve que o amor acabou?
Por que o objeto de nosso amor,
já não é capaz de despertar desejo,
companheirismo, intimidade,
cumplicidade, prazer?

Nunca deixamos de amar!
Quando descobrimos que,
alguém já não nos basta,
é porque nunca o amamos,
porque... não há amor que acabe,
mas falsos amores descobertos,
desmascarados, expostos,
à luz de nossos frágeis sentimentos!

Descobrimos que amamos,
apenas e tão somente quando,
passados anos,
muitos anos,
permanecemos desejando,
cuidando, sentindo
um imenso prazer na
presença do outro,
e uma... urgência inaudita,
na simples perspectiva de sua
ausência, de sua demora.
Não deixamos de amar,
apenas nos iludimos,
com a paixão,
com o conforto,
com a leveza do outro,
que mesmo não sendo amado,
nos dá a segurança de acreditar,
que é possível amar!

Amar é um encontro de alma,
uma solução única,
do dilema de existir,
para além de mim,
para além do tempo,
para além das conveniências!
É um desesperar-se constante,
por constantemente, sentir a falta,
que o outro faz, em tudo,
em todo o tempo,
todos os espaços!

Não é possível deixar de amar!
É possível nos enganar sobre quem amamos!

Pessoas em mim






Acordo, acredito, sinto,
Sou invencível, sou forte,
Jovem, alto, determinado,
Acordo, outro que não eu,
Encho meu mundo de música,
Meu movimento segue os acordes,
Todo meu ser vibra, como se fosse,
Notas que a música projeta,
Sobre mim, sobre o que sou!

Passado alguns minutos,
Tenho de silenciar,
Esvazia-se de mim, aquel’outro
Que em mim acordou,
Angustiado, estafado,
Soterrado por deveres, obrigações,
Amargo por separações, embrutecido,
Por necessidades alheias a mim,
Procrastinador até não poder mais!
Nada de mim, nem do que sou!

Termina o dia, exaustão,
Pleno cansaço de mim mesmo,
De minha humanidade,
De todos os seres que se me divizaram
Que dividiram, sua infelicidade,
Sua permanência estúpida no mundo!
Que buscavam apenas a sobrevivência,
Vazia, sem sentido, numérica apenas,
Como eu, nos meus dias,
Como ele, em seus dias,
Como a humanidade, em seus dias,
Criamos razões para ter prazer,
Fabricamos razões para ser feliz,
Mentimos sobre a unidade de nossa existência,
Toda cheia de pessoas distintas,
Tal caleidoscópio ensandecido,
Incapaz de fixar uma única imagem,
Que me permita ser mais que mero fragmento,
De um espelho quebrado,
De um cristal partido,
Onde há apenas o reflexo de uma pequena parte,
De uma pequena parte de mim,
Que não consegue a unidade,
A integração do todo,
Numa única unidade de sentido!

Como exigir coerência de existentes,
Tão fragmentados,
De existentes, onde há sempre,
Tantas pessoas em uma só?

domingo, 5 de janeiro de 2014

Escrevinhador






Sentado na frente do computador, parado há algumas horas pensando nas muitas coisas que gostaria de escrever, paralisado pelo imenso peso da responsabilidade de colocar sentimentos, pensamentos e, portanto dores, na tela que se oferecia inerte à sua frente.
Uma pergunta se repetia incansável, por que escrever? Por que submeter-se ao terrível destino de escrever e esperar ser lido? O que o movia?
Eis a questão fundamental do escrevinhador. Tornar-se um escritor. Escritor é aquele que tem apenas um objetivo, responder às suas ansiedades, aos seus temores, às suas dores e às de todos aqueles que lhe derem a graça de ler seus escritos. Realizar a humanidade de cada um na inteiração entre o que está escrito e o que é lido. Porque certamente o que está escrito nunca é o que é lido! Mas algo que fica entre quem escreve e quem lê, como uma intimidade dividida com muita parcimônia entre aquele que emite a ideia, o sentimento, e aquele que a pensa e sente.
A responsabilidade de escrever é paralisante, porque o medo de não ser lido, de não dizer nada é muitas vezes opressora! Se o leitor soubesse o poder que tem sobre aquele que escreve, sentir-se-ia senhor da obra!
Mas lá estava ele paralisado em frente ao teclado, que o desafiava, com um ar irônico de desafio e zombaria. Apenas quem já ficou paralisado na frente do teclado, com o prompt piscando, de forma a torturar a noção de tempo é capaz de perceber a aflição que reside no ato de escrever!
Mas lá estava ele, certo de que seu desejo era apenas e tão somente ser lido, dizer ao mundo o que guardava em seu coração. Sabia que o que tinha para dizer não era mais especial, nem mais importante, do que qualquer outro ser humano poderia dizer, não era isso que o impelia, mas apenas a sua natureza de desejar fazer-se compreender, de fazer-se transparente para um mundo opaco.
Seu móvel era trazer mais liberdade, desafiar as cadeias mentais, as pobrezas intelectuais que se afirmavam, romper com o silêncio constrangedor que cercava as obras escritas e amparadas apenas por um desejo de beija-mãos, ou de reprodução da ignorância o que era, certamente mais aflitivo!
Não se trata de escrever o que todos desejam ouvir, desejam ler, desejam ter em suas mentes como formas de afirmação do óbvio e que nos dão aquela segurança bovina de não sermos reprovados. Ah, sim, o medo da reprovação, é certamente a forma mais violenta de escravização do pensamento. Por que devemos pensar apenas o que se nos é permitido?
Por que temos de aplaudir quem quer proibir cigarros em locais públicos, praças, ruas, enfim, por que temos que condenar nossos vícios, única garantia de nossa humanidade? Por que temos que acreditar que o outro que não acredita em nosso Deus é ímpio e deve ser aniquilado? Por que temos que acreditar que proibir as bebidas em parques, basta para que não haja arruaceiros, quando então, todos os que gostam de beber no parque devem deixar de fazê-lo em nome da redução de gastos nos hospitais públicos e do sossego dos que não sabem conviver com a diferença?
Será que logo ser gordo será um pecado mortal? Teremos que proibir doces, farinhas, feijoadas, costelas, por que nos farão mal e aumentarão os gastos com saúde pública? Proibiremos aparelhos de som com potência que possa ofender o tímpano? Passaremos a colocar limitadores de velocidade em todos os carros para que não passem de 100 km/h?
Na sequência, colocaremos câmeras em todas as ruas, esquinas, árvores, postes, locais públicos, para impedir a violência? Poderemos fazer muros em volta das cidades para controlar a identidade das pessoas que entram em saem delas?
Todos pensarão iguais, farão a mesma coisa, assistirão aos mesmos programas, viverá da mesma forma, tal qual Admirável Mundo Novo?
Com certeza assim será apenas para a grande maioria, tal qual gado, que se coloca a disposição de uma casta de privilegiados que estará encastelado em um paraíso sem nada disso, podendo fazer o que bem entendem, e assim, únicos humanos entre bilhões de escravos!
Ele despertou do torpor que o cimentava na cadeira, olhou a tela, o prompt, o teclado e decidiu-se por gritar, em caixa alta tudo que gostaria de dizer para alertar o mundo, que precisamos estudar mais Epicuro, mais os hedonistas. Precisamos esquecer que o mundo pode ser melhor à custa de nossa frágil humanidade!
Pôs-se a escrever, freneticamente, horas, dias, semanas, até que um dia fundiu-se ao teclado, e está, como um alter-ego, soprando a todo que escreve, com liberdade, que não ceda ao imperativo da desumanização que se opera a cada momento que lemos algo estúpido, que busca a nossa despersonalização, que busca a unanimidade burra, que sepulta toda possibilidade de existência, para além de um repolho!

Fúria, paixão






Todo encontro era regado a fúria,
Todo encontro era regado a paixão,
Onde estão todos aqueles sentimentos?
Ficaram presos, perdidos na lembrança?
Estão ainda, envoltos nos lençóis,
Ainda quentes, que se estendem,
Pelos colchões, pelas camas,
Pelos chãos, vazios de nós,
Mas plenos da esperança,
Do reencontro, da surpresa,
De cada despir-se, de cada beijo,
De cada jogar-se, enroscar-se,
Completar-se, insaciavelmente,
Em minutos, horas de permanência,
De tua cabeça em meu peito,
De teu corpo em meu corpo,
Na beleza plástica, da arte,
Interminável de amar.

Amar como obra prima de fusão
De imaginação,
Amar a alma, o corpo,
Os pensamentos, os desejos,
A loucura, de perder-se,
Totalmente, em você!
Exausto, desfaleço nos lençóis.
Que agora, servem apenas de testemunhas,
Mudas e silenciosas, de um amor,
Nunca acabado, sempre recomeçado!