Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Toque





O toque não é encantador por aquele que toca
Mas por aquele que é tocado,
Por sua feminilidade única,
Completa,
Estupefaciente,
Bela,
Definitiva...

Quando tocar-te me faz existir,
Para além do tempo,
Para muito além de mim,
Quando minha ausência,
É fraqueza, é miséria,
É inépcia, é fatalidade...

Quando tocar-te, privilégio que me concedes,
Que não sei quanto mereço, mas que gostaria de...
Tocar-te me faz mais vivo e real,
Mais verdadeiro, mais existente,
Mais crente no que sou de bom,
De honesto e real,
Quando não te tocar me revela,
Todas minhas fragilidades, minhas insuficiências,
Meus mesquinhos preconceitos,
Minhas proteções, de minhas covardias,
De minhas egoístas memórias...

Quero-te hoje, lendo,
Representando, vivendo,
Quero-te nua, vestida, sóbria, embriagada,
Quero-te com o que te sobras, com o que te faltas,
Quero-te toda inteira, toda como és,
Quero-te como sempre será, se me amares um dia...

Toque, que só existe, na intimidade de mim e de ti,
Que só existe no espaço exíguo do tempo e do espaço,
Que vivemos na cama que elegemos como planeta,
Inteiro de nosso amar e sentir...

Quero-te...
Toque!

Sentido?






Fecho os olhos, cansado de existir sem sentido, amando, mais que amado, exausto de perceber o non sense de cada dia, de cada respirar, da frenética sucessão de dias e noites, de ruas, calçadas, faixas, sinaleiros, pedestres, rádios, sons, pássaros, nuvens, arvores, asfalto, veículos, bicicletas...
Fecho os olhos e a angustia de existir me assalta, entendo Sartre, entendo a liberdade irredutível dos seres, a solidão insofismável que nos cerca. Fecho os olhos e desespero para entender que isto é o que permeia a vida...
Impulsionado pelo desejo de manutenção da vida de uma carga genética alheia a mim, não compreendo bem a necessidade de dar sentido a esta existência vazia e repetitiva, determinada por ânsias incompreensíveis à razão e completamente alheias às minhas paixões.
Penso atribuir-me sentido para esvaziar meu sofrimento, mas a busca é vã, porque não há sentido, não há sentido possível numa vida que apenas se reproduz, que se busca repetir num incansável emaranhado de falta de sentido, de reprodução estéril, de faminta sede de liberdade.
Sim, se há algum sentido no existir é a liberdade, mas tudo me busca limitar, tudo é desonesto com meu sentir, com meu existir, tudo é mentira em volta de mim, tanto assim, que a verdade é que é coisa ruim, a verdade é falsa, abjeta, monstruosa, porque nega a existência do mundo tal qual ele é, tal como, e apenas pode, se apresentar ao todo...
Não, estamos redondamente enganados, não é a mentira que é o problema do mundo, mas a verdade, ela é insuportável, medonha, destruidora, invejosa, a mentira sim, esta é a construtora da cultura, da arte, da linguagem e da expressão da arte, mecanismo original de demonstração de amor ao mundo.
Mas, se vivemos porque o mundo é mentira, mentira não só para nós, mas para o demiurgo criador também, então em que ordem estará a verdade? Estará ela relacionada ao demônio? Acredito que sim, nada mais ruim e demoníaco do que aqueles que se acham donos e dominadores da verdade, nada mais violento e infame do que os que acreditam saber tudo de verdadeiro e único, nada mais torpe do que os fiéis invioláveis e puros.
Assim, a existência é um eterno mundo de cabeça para baixo, que se repete não como um paraíso na terra, mas como um Inferno dantesco, que se renova a cada dia, para acentuar nossa indizível mesquinhez, nossa profunda insignificância, nossa infinita desimportância.
Preciso desta reflexão, preciso disso para acomodar meu desassossego, para aplacar a dor do meu pensar, para permitir, mesmo que por algum tempo ainda, uma repetição inexplicável do mesmo, todo o tempo, do nada, toda a vida, do sem sentido a cada momento.
Sentindo, é isso, apenas sentindo todo o nada que cerca o existir, é que somos capazes de perceber que o que dá sentido à existência é sentir, sentí-la dolorosa, sentí-la torturante, sentí-la sem sentido.
Como farei para continuar a repetir-me só, livre, e ao mesmo tempo escravo deste mundo mentiroso e paradoxal que construímos à imagem e semelhança de nossa falta de sentido?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Que existência é essa?





Que existência é essa que me faz levantar todos os dias e escutar a rádio repetir sempre as mesmas mazelas, sempre as mesmas dificuldades, de um país improvável?
Que existência é essa que me faz descrer do Judiciário, de ver meu país estiolado e roubado por aqueles que de maneira trágica e cômica se dizem salvadores da pátria?
Que existência é essa que me cansa de ver a estupidez de um magistrado do TSE receber mais diárias do que salários em um ano apenas, e a burocracia, cândida, mas espertamente, dizer que tudo é legal, sem que nada seja moral, ético ou legítimo?
Que existência é essa que faz com que passe a viver os medos que tinha em 1986, como se a história deste país improvável, fosse um lamentável círculo de misérias e infernos?
Que existência é essa que não é capaz de desenraizar-se, lançar-se para longe, além oceano, além história, além tempo, para negar este país aparelhado, embrutecido, emburrecido?
Repugna-me aceitar que apenas a burrice, a estultice, a bizarrice, justifiquem que todos os dias ligue a rádio do carro para ouvir sempre e incansavelmente as mesmas coisas, como um manifesto perpétuo de minha impotência!
Eleições para eleger sempre os mesmos sujeitos, governos apenas para roubar-me a força de meu trabalho e a força de meu viver, Estado apenas para violentar-me em meus direitos e minha vontade.
Eu quero mesmo, é a Anarquia, quero a supressão disto tudo, quero o fuzilamento de todo sujeito salvador da pátria, quero a aniquilação do Estado, quero o fim deste círculo de Dante que nos faz enlouquecer cada dia um pouco, para embrutecidos e entorpecidos, figuremos como um arquétipo medonho chamado povo!
Quero romper com esta existência sem sentido, que só terá sentido, com a ruptura...
Quero rir de mim mesmo, quero ser capaz de andar nú, andar contra-mão, estacionar no meio de um palácio, beijar todas as pessoas, plantar flores, dar de mim e de todos a cada um não segundo suas necessidades, mas a todos segundo seus desejos!
Quero que este país e este mundo explodam, com a alegria de minha liberdade, para além de toda opressão...