Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Limites





Malditos limites impostos pela linguagem,
Malditos limites impostos pela nossa mediocridade,
Expõe de maneira insuportável a insuficiência da palavra,
A incapacidade de dizer da devoção e da adoração,
Estupefacientes do momento de estase e prazer!

Limites da palavra, falada, mais ainda mais grave...
Os limites da palavra escrita, sem sentido, sem razão,
Um imenso travo sobre os olhares da alma...
Que assim permanece numa cegueira angustiante,
Estupidificada pela incapacidade de dizer do que sinto!

Limites de uma inteligência incapaz de pensar para além
Das fronteiras naturais dos sinais, símbolos e signos que
De maneira tão limitada concebeu para construir, imagem,
Semelhança, mas nunca para decifrar o sentido absoluto,
De uma natureza divina encerrada em uma forma mesquinha!

Limites tristes de cada um de nós, incapazes de serpentear,
Dos pequenos olhos d’água aos mares oceanos do labirinto,
Aquele escuro e insondável que habita, não como outro,
Não como estranho, mas como não capaz de expressão,

Por esta tão mesquinha e limitada forma de pensar dores!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Olhar








Como saber-me amado?
Quando encontro nos teus olhos,
A melhor imagem de mim,
Quando encontro devoção,
Onde o desejo permanece,
Para além da dor, para além da falta!



Como saber-me amado?
Se não me encontro refletido,
Se não me acho existindo,
Quando vejo fundo teus olhos?



Como saber-me amado se...
Descubro toda minha transparência,
Se me percebo tão sem importância,
Se apenas estorvo pela dor que sinto,
Se surjo presença apenas tropeço?



E assim, de um existir ausente...
Pouco sei de meu querer presente,
E se queres saber de minha realidade,
Olhe-se, procura-me no fundo,
No fundo de teus olhos tristes,
Constatas que me alheias de lá,
E como ausente, saberás de mim!



Mas, se ainda acreditas de onde estou,
Ou se já parti a tanto... porque indiferente,
Não entristeças, porque teu olhar ausente,
Já não me vias, intuías o vazio que restou!




Leitor








O que fazes leitor? Agora?
Aquele que me lê, faz poesia,
Porque sem leitor, não há poema.
Se estas palavras são lidas, sentidas,
Então, poesia que se constrói.
Há então poema, há literatura,
Só enquanto encontro esotérico!
Entre o que sinto e o que lês!



Assim, que se faça devoção,
O amor que sinto ao derramar,
Parte de mim nestes versos,
Que se reescrevem a cada encontro,
Que se fazem outro no olhar alheio!



Se esta é uma poesia,
Todo seu existir e sentido,
Só se faz, se e quando chegar,
O coautor ideal...! Leitor!


Buscar






Buscamos tanto saber das estrelas,
Buscamos tanto saber do Universo,
Buscamos tanto saber das Ciências,
Buscamos tanto saber da Verdade,
Que esquecemos do outro, que...
Com um olhar terno e carinhoso
Busca apenas saber de amar!

Quanta busca inútil!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Palavra






No meio do caminho tem uma palavra,
Tem uma palavra no meio do caminho!
E não podia ser lida, tão cheia de sentido,
E não podendo ser dita, emudecia...
E tem uma palavra, e tem um caminho,
E eu ali, entorpecido, a esperar um carinho teu!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Lenin








Lenin estava coberto de razão,
Não há como questionar suas certezas,
Dizia ele...
“Enquanto existe Estado,
Não existe Liberdade!
Quando houver Liberdade,
Não haverá Estado!”
Pena, que nem ele, nem seus discípulos,
Ouviram a sábia lição!
Onde há Estado, não há Liberdade!
Assim, nada há a esperar do Estado!
Acreditar no Leviatã, é decepcionar-se!
Acreditar no Sistema, é hipocrisia...
Desconfie sempre que alguém disser:
Isto é obrigação do Estado!
Estará diante da mediocridade,
Ou diante do meliante...
Ou pior, diante do desespero!


Uma vida




Caminhei uma vida toda,
De existência incontida,
Transbordando dores e faltas,
Apenas para descobrir,
De maneira intensa, definitiva,
Que todo o sentido buscado,
Ansiado, desejado, se resume...
No ato de encontrar você!

Brasileiro








Tens um país tão vasto, tão rico,
Vives sempre numa pobreza,
Acalenta a tristeza, de ver sofrer,
De ver morrer, tua juventude,
Tua força, tua verdade, teu futuro!


Tens um país que faz promessas,
Mas tão falsas quanto são os hipócritas,
Quantos são os cínicos que te enganam,
Que te fazem crer na mudança,
Para que tudo se repita, tudo se perpetue!


Tens um país tão rico em histórias,
Mas te ensinam uma fantasia,
Tão pouco edificante, tão mesquinha,
Feita de falsos heróis, falsas revoluções,
Imagens fabricadas, de personagens vazios!


Tens um país imenso de tradições,
Que se imagina rico em natureza,
E tão pobre em respeitar dores,
E tão mesquinho em repartir,
E tão incoerente nas leis e nos discursos!


Brasileiros, têm vocês tanta fome,
De liberdade, de contemporaneidade,
Mas, viveis presos nas saudades,
Dos berços de ancestrais, dignos,
Mas tão pobres e rejeitados!


Brasileiro, sonhas com um futuro,
Que se nega a realizar-se,
Não porque não sejas capaz,
Mas, porque és parte desta miséria,
Porque a reproduz sem pensar!


Tens um país que te roubaram,
Que te roubam toda eleição,
Acreditas numa urna, que não darias,
Sem pestanejar, nenhuma credibilidade,
Se dinheiro teu se tratasse...


A assim, roubaram a tua história,
Roubam todas as tuas riquezas,
Roubam tua dignidade,
E devolvem sempre esmolas,
Para que continues a minguar... sem morrer!

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Mundo





Há um mundo que me cerca,
Este mundo, estranho mundo,
Diz de mim algo que não sou,
Procura uma definição que me escraviza,
Impõe-me uma forma e motivação estranhas!

Há um mundo sem o qual não existo,
Mas que me é estranho de todo, confuso,
Exige explicações alheias ao que me define,
Tece considerações sobre meus atos, meus pensamentos,
Mas a conclusão é outro tão estranho de mim!

Sim, há um mundo lá fora, que é outro,
Tão outro e tão estranho, que incompreensível,
Para aquele mundo que habita cá dentro,
E só porque não pertenço a este mundo do outro,
Consideram-me louco, institucionalizam-me, abominam!

Assim, o que resta deste mundo, fora de mim...?
Que não o reconhecimento de um teatro de sombras,
Tão estranho, tão alheio, que me torna ator de mim,
Que me impõe fantasias tão várias, que não me reconheço,
Roteiros que me tornam mal interprete do que sou!

Há um mundo lá fora, tão estranho, tão louco,
Um  hospício chamado realidade, que apenas me resta,
A certeza de ser ator, de um teatro da insanidade,
Abandonado de minhas qualidades, submerso nas faltas...
Que um diretor tresloucado, que se diverte com meu desalento!

Neste mundo, outro mundo, que não o meu, existo para lamentar,
A falta que me faz, existir apenas para amar e saber-me amado!