Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Natureza morta




Sempre fiquei intrigado com o título Natureza Morta. Pode a natureza apresentar-se morta?
Apesar de a morte ser uma constante, fazer parte da própria vida, a natureza nunca estará morta, porque nela reside a totalidade, nela está o mistério único, de um caso fortuito de criação, que não buscava qualquer objetivo em particular, mas acidentalmente produziu a consciência de si mesma.
Muito se discute sobre o homem ser a criação mais especial e perfeita da natureza, mas assim são também os chimpanzés, os bonobos, os gorilas, os orangotangos, os elefantes, as baleias, os golfinhos e toda forma de vida, que em milhares de anos, evoluíram a uma forma que se adaptou à realidade deste grão de areia perdido no Universo.
Talvez sejamos sim, o centro do Universo, mas apenas e tão somente, porque somos capazes de concebê-lo, somos capazes de pensá-lo, de compreender suas dores, seus rancores, sua insensatez de existir.
Cada vez que nós homens e mulheres, descobrimos uma nova teoria para o surgimento da matéria, há sempre uma nova, que gesta uma antítese, negando aquela! Ainda não aprendemos que nossa limitada capacidade cognitiva não pode fazer mais que apenas especulações. Que nossa fragilidade temporal não nos permite olhar para o Universo mais que um pequeno clarão de fração de milésimo de segundo.
Somos um nada presunçoso, somos uma fragilidade que se julga forte, somos seres que em um sopro podemos ser esmagados, acreditando que podemos resistir à nossa própria insensatez.
Nos matamos, porque não entendemos que a lealdade dos humanos não é com sua espécie, mas com suas tribos, como é com todos os primatas superiores. Não entendemos que as religiões são meramente elementos tribais de aglutinação, motivo pelo qual o Ocidente e sua cultura estão ameaçados pelos fundamentalismos de todos os matizes.
Não percebemos a imensa perversidade de toda fé imposta ao outro, até porque fé é apenas e tão somente uma crença que não ultrapassa o limite do ser em si.
A irrascibilidade com que os religiosos fundamentalistas se permitem matar os outros, pelo simples motivo de sua alteridade, demonstram bem, que descemos da árvore, saímos da floresta, começamos a andar bípedes e implumes, glabros, mas somos incapazes de perder nosso pertencimento tribal.
Os deuses tutelares urbanos desde o surgimento da escrita e da história, são os garantidores de pertencimentos que nos diminuem a angústia da diluição na multidão. A religião surge como necessidade do sedentarismo, como necessidade de identidade entre grupos heterogêneos, e promete o que for, por mais insensato, para garantir a fidelidade dos “irmãos”.
A Natureza nunca pode estar Morta, porque é a própria vida, é a garantidora de nossa fração ideal de vida, que como vivos, compartilhamos com todas as outras criaturas do planeta. Estamos todos, nós os vivos, um pouco mortos, a cada segundo que passa, porque fomos dotados de uma obsolescência programada, para permitir a renovação do mundo, em outras formas, em outras criaturas.
O esfacelamento dos pertencimentos no Ocidente secular, tem criado a necessidade de novas formas medonhas de religiosidades cada vez mais apartadas de sua original função, que era agregar todos os humanos numa única tribo. O esfacelamento da Igreja no Ocidente trouxe o enfraquecimento de nossa cultura como vírus instalado, que agora produz a desagregação de nossos valores.
O pecado mortal da teologia foi ter convencido o homem de que sem deus não há moral. Muito pelo contrário, os valores devem ser construídos na medida da necessidade de sermos justos, não porque herdaremos a vida eterna, ou um estado de beatitude exclusivista, mas porque, se não formos solidários com o outro, seja qual for sua tribo, tenderemos à divisão e à extinção, como fazemos hoje com nossos irmãos primatas superiores.
Se esses primatas estivessem unidos, como nas utopias cinematográficas, talvez não tivéssemos muitas razões para comemorar nossa sabedoria, construída sobre um cérebro poderoso e pesado, mas num corpo muito frágil.
Não acredito na Natureza Morta, acredito na Religião Morta, como condenação da divisão de todos os homens, como condição necessária da luta de todos contra todos, e como prenúncio doloroso de nosso próprio extinguir.
Extinguir seja como cultura, seja como espécie!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dor do existir




Queremos todo o tempo manifestar nossa existência como um vagido, louco vagido, que se manifesta ruidoso em nossa alma, mas que não encontra canal que o faça ser ouvido no mundo surdo que nos envolve.
O alheamento e a solidão que nos cercam, imprimem dores, que nos prendem, tal qual correntes inquebráveis, às nossas cadeias internas, aos nossos sofrimentos indizíveis, porque incompreensíveis até para nós mesmos.
Um lamentação que se arrasta, como se a morte, desejada, fosse buscada em cada ação desatinada, em cada esquina em que a violência espreita. Uma busca do nada original, que apenas reproduz o estado de beatitude do não existir!
Não podemos alardear nossas dores, mas apenas as dores consentidas, numa escala perversa de existir para a dor, com sorrisos, com amizades, com tapas nas costas, que doem e fazem doer, ainda mais as feridas que nossos pensamentos produzem na alma desencantada, porque sabedora da irredutível solidão.
Uma dor de existir, que nos faz compreender a inescapável responsabilidade de tudo que nos acomete, que se abate, que desmorona sobre o nosso estar no mundo. Nefasta sabedoria que nos faz perceber em cada sucesso e em cada fracasso, o quanto está lá nossa própria vontade, nossa irredutível participação, a incontrastável presença assinada de nossa responsabilidade.
A dor de existir é a certeza que temos que entre o acidente do nascer e a necessidade do morrer, existimos para alcançar a beatitude da morte, desapegados de todo pertencer, de todo possuir, de todo desejar.
A dor de existir se encerra nos livros que me cercam, e que não me pertencem, mas que eu, lhes pertenço para todo o sempre, entre as capas, que o tempo irá esfarelar, para desgraça e desencanto do que resta de minha alma!