Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Surreal





Vivemos num país surreal, onde tudo que parece não é, e aquilo que deveria ser, também parece, e também não é.
Em nossas cidades o gigantesco aparato público da administração municipal é absolutamente impotente perante os cartéis de proprietários do transporte público. Assim, vou novamente ficar filosofando sobre a parada de ônibus.
No Rio de Janeiro em função da defasagem das tarifas e da pobreza entristecedora em que vivem os proprietários do transporte coletivo, a instalação de ar condicionado nos coletivos urbanos será postergada como exigência. Obviamente numa cidade que tem temperaturas amenas, e um serviço de transporte público eficiente e de oferta generosa, tal não deve ser uma questão que mobilize a elite política.
Já em cidades mais subtropicais, onde a temperatura varia dos 4 aos 32 ºC num mesmo dia, devemos considerar que tal acessório também seja despiciendo. Obviamente o alcaide, os edis, os nababos, os deputados e os governantes não andam nos coletivos, por que motivados pela eficiência e pela necessidade de pensar, precisam estar protegidos em seus veículos com bancos de couro e ar-condicionado, tudo isso pago pelo povo que utiliza o transporte surreal.
Porém, estou eu na calçada, esperando o ônibus para ir ao trabalho. Passada uma hora, descubro que os motoristas estão em greve por falta de pagamento do salário de janeiro. As companhias dizem que os ônibus estão à disposição, a prefeitura diz que repassou todo o valor contratual para o pagamento dos salários, mas os motoristas e cobradores não receberam.
Tudo está perfeito, porque nesta cidade fantástica, a greve dos motoristas é desencadeada pelos proprietários das empresas de ônibus que buscam forçar a correção da tarifa, num conluio contra a população mais pobre.
O que não contam estes cidadãos é que até o imposto de renda pago por eles é acrescido no custo da tarifa, bem como o sindicato pelego dos motoristas recebe 3% da folha de pagamento para dobrar-se aos desígnios chantagistas dos proprietários da frota.
A prefeitura, imagino eu, fica entre reconhecer sua impotência ou dobrar-se a subsídios, que terão como retorno estímulos para campanhas. Aguardo que se cumpra a decisão judicial de que 30% da frota deve circular fora dos horários de pico e 50% nestes horários. Mas não há sinal dos veículos, e assim, os motoristas, os proprietários das empresas e a prefeitura sequer se dão conta de que há um judiciário.
Aguardo, estou aguardando, chove, faz sol, sinto calor, sinto frio, nada diferente do que sentiria se estivesse enlatado dentro daqueles túmulos ambulantes, de onde saem aos magotes, a população desditada de uma cidade que se diz sorriso, mas sempre foi muito carrancuda.
Fico a observar a quantidade de imensos veículos chamados “SUVs” que desfilam pela cidade, estacionam em fila dupla, que fazem o que bem entendem, como a afirmação de um direito de exposição de sua estupidez contra a ordem pública e a sensatez.
Fico a observar inúmeros veículos lotados com apenas uma pessoa, que vão e vêm com destino marcado, e que ocupam o espaço que é de todos. Observo bicicletas na contramão, furando sinaleiros, andando no meio da faixa, e todos os condutores deste velocípede com ares arrogantes de esperteza e superioridade, embalados pelas sandices de um prefeito que deve morar em outro lugar, que não nesta cidade que faz chuva, faz sol, faz vento, faz chuva, faz garoa, faz sol, enfim, faz uma miríade de microtempos, que não permitem tornar o que na linguagem burocrática chamamos “transporte de massa” às magrelas.
Fico ouvindo o rádio para ter informações, ouvindo no smartphone, que mesmo no meio da rua tem um sinal ruim, falha, cai, enfim é o reflexo claro dos desmandos e dos desequilíbrios provocados pela alteração do marco das telecomunicações realizado por um presidente cachaceiro e carismático, que não contente com o descalabro que causou ao país, acabou de afirmar que em 2018 ele volta ao poder.
Este é um país do futuro, penso eu! Quando eu tinha 15 anos este país era um país do futuro, do “Ame-o, ou deixe-o”. Hoje nos meus 54 anos, ele continua a ser o país do futuro, de um futuro surreal, onde o mundo cresce e ele decresce, onde a Coreia do Sul do tamanho que é, no lugar em que está, é mais poderosa do que este país com seu tamanho e sua localização.
Fico a pensar o que deu errado neste país, fico imaginando, ali, parado na calçada, o que é que deu tanto errado neste país?
Por que elegemos sempre os mesmos sujeitos? Ora, porque não nos é dado eleger ninguém diferente, porque não é possível entrar para o círculo da política a quem está fora do establishment. O nosso sistema político é blindado, assim como as empresas de ônibus, os motoristas, os conselheiros do TCE e do TCU, os partidos políticos, inclusive aqueles que sabidamente mataram pessoas, pagaram propinas, assaltaram a Petrobras e continuam a nos roubar e mentir.
Posso ficar aqui, esperando o ônibus, um dia ele há de chegar, estarei molhado, cansado, desesperançado, mas o motorista estará só se preparando para a próxima greve, para aumentar os lucros e a safadeza de seu empregador e para continuar a encher os cofres do sindicato de malvadezas, com o suor do meu trabalho, com a dor dos meus pés, com a desesperanças que me provocam, por viver num país surreal.
Novamente me derreto na calçada e resto como mancha que anuncia minha insignificância, minha tristeza e meu abandono, reluto a crer que em algum momento, minha consciência será apagada do ponto de ônibus em que me construi sujeito de mim. Mas assim será, se em mim não sobrevivesse um grito.
Tenho um grito preso em minha garganta, mas ele está calado, está dolorido e retido no meu peito, porque não há ninguém para ouvir, porque neste país surreal, aquele que é cruel e humilhantemente explorado tem apenas um sonho.
Ser o explorador!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Parada de ônibus





Aguardava pacientemente a chegada do ônibus.
Era um dia escaldante, suava por todos os poros possíveis, e por aqueles apenas imagináveis. Sabia que pelo horário, o ônibus tal qual um navio negreiro da época colonial, estaria transbordando de humanidade, de calor, de odores acres, de apertos e desconfortos.
Sabia que aquela nau sacolejante e intempestiva, avançaria por sobre o mar de automóveis, onde humanos abençoados pelo ar condicionado e pelo espaço sagrado da privacidade permitiam um ir e vir tão diferente do que aqueles porões sobre asfalto do transporte coletivo da cidade projetada para o transporte dos nababos.
Sabia que o motorista entre estafado, irritado e horrorizado, não percebia que os avanços aos trancos e os estancamentos súbitos, produziam um não sei que de nauseabundo resultado sobre a existência de cada ocupante daquela nau de novos escravos do tempo, do trabalho e do sofrimento.
Aguardava o ônibus, que sabia, não tinha ar condicionado, não tinha qualquer item de conforto que o fizesse parecido com um transporte de qualidade, mas que era a própria afirmação das diferenças de classe, das diferenças de crença, das diferenças de berço. Sim, o transporte coletivo era a afirmação, era a denúncia de uma sociedade que se regozija da desigualdade, que sente volúpia ao permitir SUVs que, ocupadas por um único cidadão e toda escurecida por filmes, tornam-se esquifes ambulantes que como icebergs, boiam no mar de veículos estúpidos, fazendo as naus negreiras ziguezaguear perigosamente por vias inadaptadas ao fluxo e ao tamanho dos elementos que a preenchem.
Aguardava o ônibus sabendo que a única preocupação das autoridades era fazer teatros de fancaria, que chamavam de licitação, para escolher os mesmos escroques como respeitáveis empresários do transporte coletivo, camuflagem ideal para o transporte dos escravos do trabalho e do tempo no século XXI, obedientes ao senhor de escravos Consumo.
Descobriu, num lapso, que perdia sua existência ali, aguardando o ônibus, como os escravos nos mercados do pelourinho, descobriu ali, solitário, suando, estafado, entre tantos outros humanos bestificados, que sua existência apenas legitimava os carros de luxo que desfilavam sobre seu olhar, para levar os senhores para o campo onde o chicote da produção e da eficiência o açoitaria, até que sua carne exposta, dessangrada, fosse dada aos abutres do Estado, com suas pensões de miséria.
Aguardava o ônibus e descobriu, tão de repente, quanto o mundo se fez no Big Bang, que tudo isso não fazia sentido. Desidratou-se tanto, derreteu-se e restou como uma mancha ignorada no asfalto, ao lado do bueiro entupido, negado a ele o destino de alcançar o mar, porque entupida as galerias pluviais com os restos da sociedade que o transportara tanto tempo, nos novos-velhos navios negreiros.

Poesia





Leio na Folha:
Poetas da internet têm milhares de seguidores...
Olho para meus escritos:
Tenho 13 seguidores.
Medida do meu talento?
Expressão do que represento?
Importância do que escrevo?
Manifestação absoluta de meu destino?
Talvez, tão somente minha desimportância.
Talvez, apenas a medida da falta de sentido!