Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Olhar



Os olhos, portões da alma,
Que tragam tudo que se lhes apresenta,
Perscrutando o mundo em busca da consciência,
Trazem para dentro tudo que há cá fora!

Perturba-me a imobilidade, anseio pelo movimento,
Porque este nega minha dor, minha ausência.
Os olhos avançam ávidos sobre o mundo,
E tomam tudo que se faz externo de mim!

Tenho cá dentro, olhos tão pequenos,
Que enxergam estrelas maiores que o sol,
Que captam a luz que vem do passado imemorial,
Que guardam lembranças de tempos já mortos.

Olhar que anseia o encontro de outro olhar!
Olhar que te quer, que obsessiona meu pensar!
Olhar tão triste, na ausência deste outro que se furta!
Olhar que melancólico vive de promessas!

Poesia, forma de existir




A poesia é uma forma de existir no mundo,
quando silenciamos é porque nos esvaziamos,
nos afundamos,
nos precipitamos,
nos abismos que ensombrecem nossas almas,
mas, ressuscitamos na palavra,
na escrita,
na leitura,
no encontro,
que se faz precioso para além das expectativas e das dores.
Se todos quantos me cercam,
estenderem suas mãos,
faremos como que cordas,
terezas de braços e corpos,
escadas formadas de pequenos versos,
amarrotados,
exangues,
salpicados de suor, como orvalho, surgido da espera e do abandono.
Poesia é como resgate da vontade de respirar,
uma forma única de aspirar a comunicação das dores,
que vão na alma,
que refletem os lanhos que o chicote da vida vai marcando e eviscerando
nos nossos dorsos falíveis, insuficientes.
Poesia como resgate da alma e do tempo de amar.
Poesia como obra inacabada do existir.
Poesia como frustração de tentar dizer,
sem ser ouvido,
de gritar em um silêncio emudecedor,
em um tempo fora do tempo,
que deixa marcas de ir, sem nunca chegar!
Poesia como dúvida,
de quantos somos,
de quantos poderíamos ser,
do que nunca chegaremos a realizar,
sem a constância do tornar poético o existir.

sábado, 17 de agosto de 2019

Descobrir




Como descobrir um amor, assim num encontro,
Tão único, tão especial, tão surpreendente,
Como descobrir um outro, com os mesmos gostos,
Tão próximo, tão distante, tão único!

A descoberta da possibilidade da felicidade,
No carinho derramado pelo interesse,
Pela dedicação desinteressada do tempo,
Pela confiança, tão pronta, tão determinada!

Como não acreditar na orientação divina
Que faz do achamento casual, num momento especial,
De um outro que passa a povoar intensamente,
Todo pensamento, todo plano, todo futuro!

Descobrir que num determinado momento,
Passamos a existir novamente para além de nós mesmos,
Passamos a acreditar que há sempre uma possibilidade,
De amar, de ser amado, de tornar-se um, inseparável!

Descobrir, que podemos ser, todo e inteiros novamente!
Que percebemos na doação total e irrefletida, pertencimento,
Que desejamos mais o outro em nós, do que nós mesmos,
Porque acreditamos na força de um sentimento regenerador!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Acreditar





Acredito no acaso, acredito no encontro que se dá para além das certezas,
Acredito mesmo, que mesmo no desencontro há uma razão de ser,
Acredito de fato, que a falta que me faz é antes de tudo uma falta em mim,
Uma dor que dilacera, que se expande, que se dilata, em cada pensamento,
Que se esparrama pelo caminho, que se espalha em cada experiência vivida!

Acredito no acaso, porque se não acreditasse eu não teria sido possível, nem você!
Acredito mesmo, porque sou uma mera possibilidade entre outras tantas,
Acredito porque de fato, sou um acaso acontecido entre milhões de outros,
E mesmo assim, com a dor que me dilacera e que me escraviza o pensamento,
Muitas vezes não consigo perceber a beleza deste acontecimento único!

Acredito no acaso, mas que não seja proibido perseguir o desejado,
Com tanta intensidade que nos permita frustrar-nos menos e alegrar-nos mais.
Que nos seja permitido amar sem pensar nos desencontros, mas nas promessas,
Que cada encontro seja uma explosão de felicidade e percebido como único,
Que acreditando no acaso, consigamos acreditar na eternidade do encontro!