Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Minha ausência





Minha ausência é só minha,
Sentida por mim e por ti,
Mas que sangra pela falta que fazes,
Todos os dias, todas as noites...

Minha ausência é só minha,
Mas é também, sofrimento meu,
Que transborda em ti, que sobeja em ti,
E que todos os dias, nos fere...

Minha ausência é só minha,
Incompreendida, incompleta,
Irrefletida, impensada,
Mas que todos os dias, fere o sentir...

Minha ausência é só minha,
Mas que rasga meu e teu peito,
Que faz nossos corações exangues,
Baterem em uníssono, cada dia!

Minha ausência é só minha,
Mas me é tão inexplicável,
Quanto o é para ti...
Minha ausência, não é tão só minha!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Em Defesa do Preconceito






Em Defesa do Preconceito
a necessidade de se ter ideias preconcebidas
Theodore Dalrymple

Sinopse:

No pensamento atual, ter preconceitos (aceitar ideias como verdadeiras, sem questioná-las) significa ser racista, bitolado e retrógrado (dentre outros adjetivos), quando o ideal seria todos serem livres-pensadores e questionarem tudo que lhes ensinam. Nesse livro, porém, Dalrymple aponta que a verdadeira razão para o surgimento desse ideal de liberdade de pensamento é que não queremos ter nossas ações restritas; desejamos poder fazer o que bem entendemos, quando bem entendemos. Influenciados pelo racionalismo de Descartes e Mill, rejeitamos qualquer autoridade sobre nosso comportamento moral, seja essa autoridade a religião, a história ou as convenções sociais, e isso faz com que percamos importantes reguladores de comportamentos antissociais. Se não nos autopoliciarmos, a lei é a única força que pode conter nossos comportamentos antissociais e os conflitos resultantes – o que muitas vezes faz com que governos se tornem autoritários.


O que penso:

Theodore Dalrymple em mais um livro fundamental nos coloca situações que se pensássemos bem, não teríamos a menor dificuldade de reconhecer a absoluta verdade de suas colocações. Em primeiro lugar, defendo há muito tempo e muito antes de entrar em contato com a obra do ilustre psiquiatra inglês que não é possível conceber um ser humano despido de preconceitos. Que todos os temos, o problema é como diferenciar aqueles bons dos que são maus.
Um aspecto relevante do pensamento dele também é assinalar que o preconceito de que todos têm de ter condições iguais desde o nascimento, que a igualdade é um valor em si, é o caminho mais curto e perigoso para o totalitarismo. A igualdade é sem sombra de dúvidas a fonte de todos os equívocos da esquerda. O pensamento de Rousseau é a fonte de perversas construções que vêm a sociedade como a culpada de nossas limitações e fracassos, e que as leis têm o dever de equalizar os homens.
Ora, o preconceito contra a hierarquia, contra o mérito, contra a diferença é a outra face da moeda de preconceitos contra a liberdade, contra o pensamento livre e contra o exercício do mérito.
Os livros hoje publicados pela É Realizações Editora têm quebrado o paradigma do pensamento de esquerda no Brasil. Podemos respirar agora os que advogam o mérito e a liberdade como ordenadores de uma sociedade sadia. O Estado Social de Direito nada mais é que uma ditadura disfarçada, um populismo às custas das forças vitais da nação, que promovem sempre este lamentável espetáculo de nacional-desenvolvimentismo populista, fonte de atraso e de fracasso históricos no Brasil.
Os preconceitos são inerentes à forma de pensar e agir do humano, e quando buscamos suprimir um, devemos raciocinar longamente sobre aquele que será erigido em seu lugar. Como Dalrymple assinala, ser contra preconceitos é um preconceito, com a gravidade de que se julga politicamente correto e parte de um princípio espúrio que é a igualdade, coisa que a natureza não só não garante aos seres humanos, como busca evitar, já que a seleção natural, como todos sabemos busca exatamente preservar apenas e tão somente os mais aptos.
Acentua ele de forma correta que a ciência cartesiana tinha entre seus paradigmas que toda verdade deve ser questionada. Este paradigma da ciência aplicada aos valores sociais, desconstruiu todos os sistemas de sustentação da hierarquia, do mérito, do valor, porém, em última análise, a própria afirmativa de que toda verdade deve ser questionada, põe em questão a verdade de que deva se questionar todas elas.
Para todos aqueles que sabem pensar, para todos aqueles que não se conformam com uma igualdade fundada no direito sem limites, que pugnam pelo valor e pelo mérito, as obras do psiquiatra inglês são um momento de raríssima possibilidade de desossar o pensamento dominante na intelligentsia brasileira, que insiste no bom mocismo da esquerda, produtora de estados de exceção, que suprimem liberdades em nome da distribuição de miséria.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Aos 7 e aos 40





Aos 7 e aos 40
João Anzanello Carrascoza

Sinopse

Fazendo uso de uma estrutura bastante inovadora, Carrascoza conta duas histórias simultaneamente, que correspondem a dois momentos distintos na vida do personagem principal, que nunca é nomeado - seus sete e seus quarenta anos. Com capítulos intercalados, os ímpares narrando a infância e os pares a vida adulta, o autor se usa dessa estratégia para construir a oposição já presente no texto. Assim como a própria infância, os capítulos dedicados ao sétimo ano de vida do personagem são compostos de breves, mas intensos, episódios independentes, sobre suas experiências - a transgressão de roubar com um amigo o pássaro do vizinho; o esforço para seguir em frente após a perda do primeiro amor; as partidas de futebol disputadas com o irmão ao fim de tarde no quintal de casa. Ao melhor estilo Cortázar, os capítulos ímpares podem ser lidos em qualquer sequências. Os capítulos dedicados à vida adulta, ao contrário, trazem uma sequência de acontecimentos cronológicos relacionados à crise vivenciada pelo personagem aos quarenta anos; a separação da mulher, a falta dolorosa que sente do filho. Interessante é notar, ao longo da leitura, como a personalidade e o caráter do menino que começavam a se formar na infância se fazem notar na maturidade. Num jogo de ação e reação, os títulos dos capítulos sintetizam os dois momentos por meio da oposição - 'fim' e 'recomeço', 'silêncio' e 'som', 'nunca mais' e 'para sempre'. Da mesma maneira, o projeto gráfico dialoga com esta dualidade - impresso em uma cor, sobre papel verde, o livro traz as narrativas da infância na parte superior da página enquanto as da vida adulta se encontram na inferior, acentuando os dois momentos distintos do personagem.

Como sinto:

Esta é a primeira novela de Carrascoza, e a única palavra que se lhe cabe é que é brilhante. Uma prosa leve, agradável, comecei a ler numa manhã de domingo e só parei quando havia concluído o livro. Posso até ser alcunhado de romântico ou excessivamente sensível, mas chorei ao final, porque o livro consegue dialogar com nossos sentimentos mais profundos. Para mim, um dos mais belos textos que já li.
O livro é de uma organicidade incrível e apesar da crítica dizer que pode ser lido em qualquer sequência, ou que não se lhe exige um rigorismo cronológico, o que faz sentido é exatamente a construção do sentimento que habita cada um de nós, nos divórcios, nas ausências, nos abandonos, nas inconstâncias que nos afligem entre os 7 e os 40.
Não tendo qualquer semelhança com Minhas Putas Tristes de Gabo, com ele guarda uma relação temática que é a irreversibilidade do tempo, o divórcio entre o que pretendíamos, sonhávamos, acreditávamos e o que a vida nos deixou, o que ela nos apresentou como realidade que roubou parte de nossos sonhos, de nossas crenças, de nossa pureza original.
Perdemos ao longo do caminho muito do que não pode ser recuperado, mesmo que ansiosamente buscado, e a dor e a angústia do reencontro apenas fazem assinalar todo o sofrimento da irreversibilidade do tempo.
O livro é uma obra de arte de um escritor maduro, que nos faz sentir com ele e em relação com o texto, boa parte das experiências de nossa própria vida.
Impossível ignorar este texto.