Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Lamento



Lamentas minha ausência,
Crês que estou ausente por opção,
Não compreendes que tenho medo,
Que o medo de te encontrar,
É maior do que a tristeza de estar longe de ti!

Fez-me acreditar em muitas coisas,
Mas também em nenhuma coisa,
Disse, estou com medo de não poder te deixar,
Deixei-te antes de não mais o poder fazer,
Porque existente em mim, um encanto,
Que se desfeito, tornaria a existência,
Insuportável,
Ininteligível,
Insaciável!

Covardia? Ao contrário, coragem,
Coragem de te magoar agora,
Para não nos magoarmos ainda mais,
Quando descobríssemos que somos,
Ausentes de nós mesmos,
Imperfeitos, incapazes,
De amar, de desejar,
Todos os dias, cada dia!

Lamento, entristeço, minhas lágrimas,
Que em silêncio, sinto escorrerem por minha alma,
Dão testemunho do que senti,
Das verdades que vivi!

Existo, mas não sei por quanto tempo,
Nem se serei capaz de existir o tempo,
Que o tempo espera de mim!

Mas nada deixa de existir, sem que tivesse esgotado,
Seu vazio, seu lamento, seu sofrimento!

Um lamento, que é de felicidade!

Correr



Corro em desvario, por uma estrada para lugar algum, onde o tempo e o espaço não se esgotam.
Corro para qualquer e nenhum lugar, mas busco, o que ainda não sei o que é, menos ainda o que será, apenas que dói em cada respirar.
Estou correndo, e meu desespero aumenta meu vazio, que não acredito possa ser preenchido, a não ser por um vazio ainda maior. Meus olhos ansiosos te procuram, minhas mãos, sozinhas no espaço, com avidez buscam tuas mãos, meus olhos, teus olhos, meu corpo, teu corpo, mas tudo se me nega ao olhar, ao toque, ao contato físico, íntimo, terno, permanente!
Continuo correndo, porque minhas pernas me condenam a não parar, porque a estrada não se esgota, mesmo que a dor de andar só aumente.
Correr, apenas isso,  um destino, um objeto de existir, que se esgota em cada gota de suor, ou será de lágrimas?
Sim, porque lamento cada passo, imploro teu olhar, teu toque, tua presença, mas não te encontro nesta corrida frenética. Estou condenado a correr sozinho, ausente de ti, ausente de mim. Uma busca, empreendida desde o primeiro momento em que te encontrei, ainda nos tempos em que correr era apenas uma promessa.
Corro, desesperadamente ao encontro do nada. Lágrimas e suor! Suor e lágrimas! Desesperadora experiência de existir!
De um existir apaixonado, pleno de sofrimento, pleno de vazio. O vazio que me deixas quando ausente de mim!
Correr desesperadamente ao encontro do nada, um nada perpétuo, que pode estar a um passo, o único nada que dá sentido,  o sentido de toda falta que existe em mim e no mundo!
Absurdo mundo, um mundo ausente de cada um e de todos os seres que compreendem a existência como apenas um correr, inexorável, sempre em direção ao vazio!
Um correr!

Para lugar nenhum!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Desencantamento




O desencantamento do mundo que Max Weber havia anunciado no início do XX, continua a progredir, produzindo a desumanização do homem.
Nada mais é sagrado, porque a sacralidade do humano é parte da magia que atribuímos ao mundo que nos cerca. Avançamos nas técnicas de domínio das forças da natureza, a submetemos aos nossos desígnios de obter energia, alimento e subprodutos, para a produção de uma gama infindável de objetos dos quais nenhuma necessidade temos.
A tecnologia não está mais a serviço das necessidades humanas, mas apenas a serviço de sua própria e ensandecida reprodução, sem qualquer medida humana que lhe ponha um limite aceitável.
Penso o que nos sucederá quando um colapso qualquer afetar a Internet, ou a energia do mundo esgotar-se abruptamente num passo de mágica, ou quando não pudermos mais ligar computadores, acessar nuvens, o que seremos nós!
Estamos caminhando para o abismo, um abismo ainda mais profundo do que o da ignorância, um abismo habitado pela incapacidade de imaginar e pensar para além do que a tecnologia nos permite sonhar!
Acreditamos que os provedores, as nuvens e os gadgets estarão sempre prontos a funcionar, mas isso não é absolutamente verdade!
Os chineses acabaram de pisar na lua, e ainda há seres humanos que creem ser uma fantasia a viagem da Apolo 11.
Os humanos foram muito além de sua condição de verdadeiros primatas, mas esqueceram de levar junto em sua bagagem a magia do extraordinário, a ideia, a convicção do pertencimento a uma realidade divina, que existente ou não, é apenas e tão somente a garantia de que existimos para além de uma natureza que é em tudo, melhor que nós!

O desencantamento do mundo é o que permite a Jihad, o Papa Francisco e o Muro da Cisjordânia. Torcemos o nariz para Bento XVI, mas ele era a única fonte de sanidade e santidade, num mundo politicamente correto e absolutamente abandonado por Deus!

Silêncio Insuportável





Tornamos o mundo, um mundo de ruídos, de gritos, de agressões aos ouvidos, porque somos incapazes do silêncio.
O silêncio nos obriga a pensar, e pensar é o ato mais doloroso que praticamos! Um ato que nos faz abrir chagas em nossas certezas estúpidas e vãs! Pensar desfaz certezas, dissolve qual ácido os dogmas de nossas estultas teologias.
O silêncio é o ácido que dilui num mesmo caldeirão a fé, a crença, o deísta, o teísta e o ateu! O silêncio faz com que façamos a descoberta do tormento que é fazerem-se perguntas, que se perpetuam, porque poucas têm resposta para além do que acreditamos. E sempre acreditamos de uma forma tão frágil, que essas não resistem a qualquer raciocínio mais elaborado. Nossas certezas não resistem a uma receita de fazer bolo!
Tolos os homens que se matam por suas crenças, morrem por sua estupidez, morrem porque se despem da capacidade de pensar! Basta um pensamento para que todas as armas silenciem! Basta um pequeno grau de humanidade, de compreensão de uma finitude absurda, para que todos os homens calem suas bestas de fazer guerra!
Cumprir ordens é despir-se da humanidade, frágil humanidade que se dissolve na banalidade do mal, exercida pelo comando de um estúpido crente de suas certezas!
Para dissolver todos os saberes, basta que um homem pense, que uma mulher filosofe, que um homem e uma mulher quebrem o silêncio cantando a finitude da existência, e a ambiguidade do amor!
Se deus tivesse pensado, não teria criado o mundo, porque o absurdo seria acreditar que ao pensar a existência deste mundo, sentiria dor, incompatível com sua beatífica palavra!
Não, não acredito que deus não existe! Não, não acredito que deus existe! Acredito que existo e que o silêncio me perturba me faz sofrer todos os sofrimentos da humanidade, porque penso, e ao pensar, peno com as dores de todos os homens que morrem pelas mais absurdas causas, ou por causa nenhuma, o que é ainda mais hediondo! Morrem de fome e de sede.
Fome de prazer, fome de arte, fome de existir para si mesmos, sede de que se lhes não obrigue a acreditar no que não querem sede de liberdade, a liberdade que me permite viver e deixar viver, o quanto seja possível, até que chegue a hora do inexorável basta, hora esta que pertence tão e exclusivamente a mim!

Morte como sofrimento





Inexplicável entender a morte como sofrimento, apenas uma vida vivida com a má consciência da eternidade, pode lamentar a morte!
Somos finitos, e é esta finitude, sua consciência que nos torna humanos. A urgência de viver, de criar, de deixar em nosso rastro algo que se perpetue, para além de nós mesmos! Esta finitude sagrada, porque inafastável, invencível é o que dá sentido a cada ato praticado.
Loucos são os que buscam remédios para a morte e para o sofrimento, porque nos desumanizam. Pior do que uma sociedade governada por engenheiros ou advogados, seria uma sociedade governada por médicos.
São os médicos seres sádicos, que vivem do sofrimento do outro, que se locupletam com o tormento de nossos medos mais insignificantes. São os médicos os carrascos do prazer e da existência humana. Buscam limpar o mundo do sofrimento, mas o mundo é sofrimento, sem o qual, não haveria consciência da existência e do tempo!
Devemos nos revoltar contra sociedades esterilizadas e esterilizantes, contra proibições de todos os males, porque são os males que me dão consciência de minha humanidade, que me abrem o caminho para uma finitude cheia de prazer, vivida na liberdade de fazer escolhas para o meu bem e para o meu mal!
A medicina, a fisioterapia, a odontologia, a terapia ocupacional, são ciências a serviço da perpetuação do sofrimento, do engodo, da esterilização do mundo, transformado em um grande laboratório de loucos e embrutecidos procurando perpetuar-se, para absolutamente nada!
Quero um mundo governado por poetas, músicos, filósofos, de pés no chão, pouco preocupados com a cor do cabelo, com as rugas dos olhos, com os pés cansados, as articulações grosseiras.
Quero um mundo cheio de dores e desencantos plenamente humanos, sofridos intensamente, em cada segundo, dolorosos, mas verdadeiros!
Quero um mundo onde eu possa lamentar a falta, onde eu tenha de lamentar a falta, onde escutar uma música, possa ser sentido como se fosse a última vez, e viver intensamente o prazer de escutá-la!
Quero um mundo sem UTIs, sem tomografias, um mundo onde o cuidado seja prestado pelas mãos de outro homem, de outra mulher, que se compadecem do meu sofrimento e são capazes de chorar comigo minhas dores, sem me isolar num lugar tão mais triste quanto um manicômio ou um mausoléu!
A eternidade é para os deuses! Maiores que eles somos nós que temos a consciência de nosso existir frágil e finito, e que dele podemos tirar toda a intensidade de um tempo que se acaba a cada segundo, responsável por cada queda, por cada esfolão, por cada dor adquirida, vivida e mantida como patrimônio único de minha unidade como existente!
Que eu exista apenas pelo tempo da música que toca, e oprime meu coração!