Espaço de sentir e pensar de Laércio Lopes de Araujo

domingo, 29 de dezembro de 2013

FIM




Sinopse:

O público brasileiro acostumou-se a ver Fernanda Torres no cinema, no teatro ou na televisão .Com 'Fim', seu primeiro romance, ela consolida sua transição para o universo das letras. O livro focaliza a história de um grupo de cinco amigos cariocas. Eles rememoram as passagens marcantes de suas vidas - festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos. Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um junkie que não larga os excessos de droga e sexo nem na velhice. Ribeiro é um rato de praia atlético que ganhou sobrevida sexual com o Viagra. Neto é o careta da turma, marido fiel até os últimos dias. E Ciro, o Don Juan invejado por todos - mas o primeiro a morrer, abatido por um câncer. São figuras muito diferentes, mas que partilham não apenas o fato de estar no extremo da vida, como também a limitação de horizontes. Sucesso na carreira, realização pessoal e serenidade estão fora de questão - ninguém parece ser capaz de colher, no fim das contas, mais do que um inventário de frustrações. Ao redor deles pairam mulheres neuróticas, amargas, sedutoras, desencanadas, descartadas, conformadas. Paira também um padre em crise com a própria vocação e um séquito de tipos cariocas. Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de 'Fim'. Mas elas também são cheias de resignação e cobertas por uma tinta de melancolia.


Minha Opinião e de vários leitores (Livraria Cultura):

        
13/12/2013  - Valdeci Ângelo Furini Garcia
           
                  Ótimo
         Fernanda Torres traça o perfil psicológico de vários personagens, ao mesmo tempo em que ilustra uma Copacabana que não existe mais: envelheceu e chegou ao fim com os amigos, protagonistas do romance. A autora narra de forma coloquial, cometendo por vezes cacófatos; mas, por outro lado, também mostra erudição, ao citar Platão e Nietzsche. Enfim, uma ótima estreia, dessa que já é uma grande atriz. Concordo com o que disse um dos comentadores na contracapa do livro: uma escritora acaba de entrar em cena. A única nota ruim deste trabalho fica por conta da Editora, que quis economizar papel e espremeu em 201 páginas o que poderia ser feito em, pelo menos, 250; o que tornaria a leitura mais agradável do que já é.
        

12/12/2013
 - Ademir
                 
                 
                  Ótimo
         Fernanda Torres tem controle absoluto da técnica narrativa. Todos os personagens e são vários são muito bem desenvolvidos. Um assombro! Com certeza, o livro ganhará merecidos prêmios.
        

09/12/2013
 - Rosemay Zarif
                 
                  Ótimo
         Mais um talento entre tantos que Fernanda Torres tem! Só o fato dela descrever com perfeição o andar de um velho, o medo de cair... como é que ela sabe? Não chegou nem aos cinquenta anos! Estou adorando o livro, ela passeia por diversas cabeças que não a dela, que habilidade!
Estou amando.
        

25/11/2013
 - Laércio Lopes de Araujo
                 
                  Ótimo
         Fernanda Torres nos surpreendeu com esta obra espetacular, não porque não consideremos a brilhante carreira de atriz, de diretora, de artista que se coloca a pensar criticamente a realidade e que dá a cara para bater, mas porque como livro de estreia, é sem duvidas brilhante. Consegue penetrar fundo na alma masculina, mostrar todas as mazelas do bom mocismo e do politicamente correto, fazer uma séria reflexão crítica sobre a sociedade carioca e brasileira, e por fim uma comédia de costumes leve, vibrante, viva, tratando sobre TANATOS. Fantástico, li em menos de 18 horas, e fiquei triste porque o livro acabou!
        

14/11/2013 - 
Ernani Terra
                 
                  Ótimo
                  Ótima estréia de Fernanda Torres como romancista. Não me surpreendeu. Tenho acompanhado seus artigos na imprensa com entusiasmo. Grande escritora, com ideias claras, dizendo o que tem de ser tido. Como ficcionista, seu romance de estreia é ótimo. Trama bem construída, personagens consistentes, ironia fina, domínio perfeito da técnica narrativa... Para mim, é difícil dizer qual dos personagens me pareceu mais envolvente, talvez o Ciro. Se eu tivesse de comparar o livro de Fernanda com um filme, compararia com o Nós que nos amávamos tanto, de Ettore Scola. Que venham outros romances de Fernada Torres!



“Marvada” cachaça!




Ela viajara com os pais, afinal era final de ano, e passavam sempre juntos em família. Foram para um Resort luxuoso, numa área de fronteira. Ele ficara para passar as festas com seus familiares, e o ano novo na Ilha, uma ilha, entre mágica e paradisíaca, que só existia na cabeça daqueles que a frequentavam.
Enfim, tudo certo, ele ainda trabalhou mais um dia, e ao final do expediente, como sói acontecer com os denodados causídicos, reuniu-se com uma plêiade de amigos num bar, entre charmoso e casual, com um nome avesso ao direito, e portanto, torto.
Estava lá, indignado, porque tinha sido esfolado pela erupção verbal de uma colega de escritório, cujos saberes jurídicos eram admirados, de maneira uniforme pelos homens e suspeitados pelas mulheres. Mas enfim, naquele dia, TPM, pressa de fim de ano, desejo de desfazer-se do trabalho, sobrou para ele o discurso de Catilina, produzido no afogadilho da hora, para livrar-se dos azares do ano!
Indignado, vai ao Happy Hour, e lá, encontrando a turma em crescente número de companheiros da “marvada”, começa a beber despreocupadamente uns tragos, para poder contar a todos os amigos, os seus infortúnios do dia.
Não que a descompostura tenha sido merecida, muito menos que tenha que ser levada a sério, ou que resista ao final de semana, mas porque conversa de bêbado é contar bravatas, parecer herói, mesmo nas maiores insignificâncias, e tornar o nosso dia-a-dia mesquinho algo digno de um romance picaresco.
Passado algum tempo, ela, de tão longe, liga meiga e saudosa.
As mulheres quando meigas e saudosas, precisam falar, algo como 15 minutos, meia hora, e se pudessem, 12 horas! O que lhes garante atenção e segurança quanto ao conteúdo do pensamento de seus homens!
Inicialmente, educado, respondeu que estava com seus amigos, e que em meia hora ligaria para ela. Ela, chorosa, disse que apenas queria lhe contar o dia.
Uma importante dica para os homens é entender que se elas disserem que querem contar o dia, por favor, fiquem quietos e escutem todas as histórias, na medida em que, por mais irrelevantes para o homem, a relevância está em escutá-las e não em seus conteúdos.
Passadas algumas horas, e após algumas canecas de chopp, ela ligou magoada pela falta de retorno, ou melhor, de ouvidos para a sua história, que ele não entendia, era também a dele!
Ele, cheio de razão, disse-lhe que estava com os amigos, que não queria escutar lamentos, que aquilo não era hora de tentar lhe contar o dia, e que quando ele estivesse em casa ligaria.
O demônio está sempre escondido nos detalhes! Fato é que, perdeu naquele momento a noção do perigo! Ela magoou-se e ele ficou alguns dias entre a vida e a morte, sob uma roseira, pagando os pecados havidos pela “marvada” da cachaça! Qual besta fera, gemia em seu sofrimento, não pela dor que ela causava, mas pela inconsequência de não compreender as necessidades e obrigações inerentes ao compromisso de conquistar e amar uma mulher!
Teve de mandar dúzias de rosas, poemas, mensagens e telefonemas, para desfazer o que, talvez, poucas cervejas tenham provocado.
Aprendera a lição?
Dizem que antes de ir para a Ilha aprazível que só existia em seu pensamento, passou nos capuchinhos para um benzimento preventivo, cuidou de comprar um chip da operadora de telefonia dela, e avisou aos amigos de “manguaça” que se, se ausentasse por algumas horas e estivesse sentado quieto em baixo de uma árvore, era porque estava recebendo o boletim sobre a doença de seu pai, que mesmo internado na UTI, fizera-lhe prometer que não deixaria de ir para a Ilha, mas que ele como bom filho, tinha que se informar e saber do seu estado de saúde.
Crédulos, como todos os homens, os amigos se conformaram com suas ausências constantes e mudas. As mulheres, sabiam que do outro lado, não havia pai em UTI, coisa alguma, mas na realidade, a mulher que lhe havia colocado um cabresto!
E esta foi sua última aparição na Ilha solteiro, e também, dizem, dos últimos Happy Hours num lugar torto.

Emendou-se, sabe-se pouco por quanto tempo, mas dizem as más, ou boas línguas, que apaixonado, amante fiel, ele garante ser por toda a vida, e que morrer de amor, sob roseiras não é para ele, que agora, sabe atender telefones, geralmente do pai que, coitado, sempre não está bem de saúde!

Pensar em nada!




Estava tranquilo, receptivo,
Foi ao encontro dela, e apenas desejava,
Estar com ela.

Entraram no carro, ele quieto,
Um bem estar beatífico,
Satisfeito pela companhia!
Ela agitada, querendo saber,
Sempre saber, o que ele pensava!

O que você está pensando? Perguntou ela...
Nada... respondeu ele despreocupado.

À resposta, ela indignada, perguntou,
Como nada?... era impossível que nada estivesse pensando.
Seguiram-se mais de 40 minutos,
De diatribes, de invectivas,
De questionamentos, de verdades lançadas,
De suspeitas mal formuladas, de certezas dogmáticas.

Mas, ele não pensava em nada...
Alheio e arredio ao conflito, decidiu-se pelo silêncio!
Mas o silêncio era o combustível do qual ela,
Alimentava a sua fúria pelo nada pensado por ele.
O silêncio amplificava sua demente angústia,
Em obter respostas e certezas...

Mas ele, que de um estupor beatífico,
Passara a um calvário rumoroso,
No silêncio de seu próprio pensamento esvaziado,
Apenas queria livrar-se da tortura inquisitorial,
A que ela, em nome do amor o submetia!

Mas como amor, se era sofrimento,
Como amor, se era incompreensãoo,
Como amor, se era tortura...

Ele não entendia, e terminado o trajeto,
Deu-lhe um beijo no rosto,
Seguido de mais invectivas e violência verbal,
Seguido de um selinho, que determinou nova,
E mais vulcânica violência verbal,
Até que resolveu, ele, sair do carro!

Deu alguns passos, sentiu uma premência,
Uma premência nunca antes sentida,
Acelerou o passo, cresceu a ânsia,
De distância, de paz, de sossego,
Começa a correr, desabaladamente,
Desesperadamente,
Para um lugar,
Onde possa, tão e simplesmente...


Pensar em nada!

sábado, 28 de dezembro de 2013

Sentimento e valor




Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort escreveu:

“Quando se trata de sentimentos, aquilo que pode ser avaliado não tem valor.”

Quando conseguimos dizer porque amamos alguém, quando encontramos razões para amar, para nos relacionar, quando conseguimos avaliar de forma objetiva uma relação, com certeza não estamos diante do amor!
Amar é não conseguir explicar por que estamos com alguém, por que precisamos da presença, do olhar, do convívio, de um alguém, que muitas vezes não reúne as qualidades que reputamos indispensáveis para o nosso companheiro!
Amar é assim, reconhecer que a relação não é utilitarista, não traz benefícios e ganhos, mas tão somente uma imensa satisfação, um bem estar sentimental que nos garante felicidade apenas em observar o outro, em admirá-lo, em conviver com suas estranhezas e peculiaridades.
Poder avaliar uma relação, poder valorar atitudes e ações, não é compatível com amar, porque, como dizia Hermann Hesse, quem ama nunca tem o que perdoar.

A magia do amor está em sua inexplicável loucura!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Humano



FERNANDA TORRES

Bustos romanos seduzem pelos defeitos; narigudos, papudos e olheirudos, se distanciam do ideal grego
Em "A Invenção do Humano", Harold Bloom afirma que a consciência do homem moderno nasceu com Hamlet. Shakespeare, afinal, seria o tronco, e todo o resto --Freud, Dostoiévski e Guimarães Rosa--, seus galhos.
O crítico americano descreve o dinamarquês como um homem contemporâneo preso em uma trama medieval. Os demais personagens não seriam capazes de raciocinar como o jovem, o autor não lhes dota do mesmo vocabulário. No choque, a razão do príncipe só se justifica através da loucura.
Estive na Galeria Uffizi, em Florença, no começo deste ano.
Lá, é possível acompanhar muitos desses saltos evolutivos na história da criação.
Iniciei o périplo pelas pinturas medievais. Sacras e bidimensionais, há pouco de humano nelas; são esquemáticas como a corte do rei Claudio.
Giotto é quem dá o passo ao descolar as figuras do fundo, dando-lhes profundidade no sentido amplo da palavra. A perspectiva expande o sofrimento de Madonas, Moisés e Cristos crucificados por bons séculos. Vale ressaltar a abnegação com que os mestres enfrentaram a restrição temática.
Para quem segue pelos corredores da galeria, a repetição de passagens bíblicas e divindades gregas cria um estado de beleza e embriaguez interrompido pelos primeiros retratos realistas da Renascença.
Na sala oito, os perfis da duquesa e do duque de Urbino, pintados em 1472 por Piero della Francesca, marcam, na impressionante coleção, o instante em que o homem se coloca em pé de igualdade com os santos.
As salas seguintes exibem uma variedade fascinante de rostos comuns, nobres, mas comuns, semelhantes à turistada. O duque de Urbino é pai de Hamlet e foi criado mais de século antes dele.
A Cosac Naify acaba de lançar uma edição preciosa do "Decameron". Cem anos antes de Piero della Francesca, Bocaccio pedia desculpas ao Espírito Santo para falar dos dilemas mundanos de quem sobreviveu ao século 14.
Entre 1300 e 1400, a Europa enfrentou a Guerra dos Cem Anos, a corrupção desenfreada do clero e a peste negra, epidemia que dizimou 75 milhões de pessoas, um terço da população europeia.
O cenário desolador flexibilizou a moral. A noção de família e propriedade foi abalada, bem como a crença na justiça divina. Os que sobraram se arrumaram como puderam, não como Deus queria.
"Sabe-se que as coisas desse mundo são todas transitórias e mortais, em si e fora de si cheias de tédio, de angústias e de tormentas, passíveis de infinitos perigos; as quais nós, que vivemos misturados a elas e somos parte delas, não poderíamos certamente resistir nem evitar se a especial graça de Deus não nos emprestasse força e sagacidade."
O discurso caberia na boca de Hamlet, ou Macbeth, não fosse a conclusão tão reverente ao Altíssimo. Aparentemente devoto, Boccaccio esclarece, logo na introdução, que sua novela não é direcionada a Deus, mas ao juízo dos homens.
Ou à sua falta de juízo. "Decameron" é um decálogo de desvios, um paraíso de putas ardilosas, freiras volúveis, padres ladrões e bandidos de toda a espécie.
Os bustos de mármore do Império Romano também seduzem por seus defeitos. Narigudos, papudos e olheirudos, se distanciam do ideal olímpico dos gregos.
Admiro a Vênus e a Samotrácia tanto quanto os Tintorettos da Scuola de San Rocco, mas as rugas romanas me provocam o mesmo deleite dos rostos da Renascença, ou dos pecadores de Boccaccio; elas revelam os anseios, a fragilidade, a torpeza e a mortalidade de gente como eu e você.
Gosto também de admirar o modelo em cera do casal de Australopithecus afarensis caminhando abraçado pela planície de Laetoli, no Museu de História Natural de Nova York. O par de macacos bípedes passeia enlaçado, enquanto admira a paisagem ancestral. São Adão e Eva encarnados e não destoam dos "sapiens" apaixonados.
Difícil mesmo é reconhecer o que há de humano nos games interativos que meu filho adolescente joga sem parar, on-line, com os amigos virtuais.
Quando o vejo aos berros, imerso na batalha imaginária, tenho dificuldade de acreditar que, algum dia, Hamlet fará sentido para ele; e temo, como a mais retrógrada das santas inquisidoras, pelo futuro da humanidade.